Em cartaz na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, com sessões neste sábado e domingo, respectivamente às 20h30 e às 19 horas, “A Invenção do Nordeste” é um espetáculo que desmonta os estereótipos e lugares-comuns que formaram o imaginário brasileiro a respeito da região.
“Eu vivi a minha vida inteira no Nordeste urbano, fui conhecer o sertão um dia desses. Fui criada ouvindo Nirvana, vendo os filmes do [cineasta sérvio] Emir Kusturica, mas sempre que estou no Sudeste, me perguntam da seca. Eu nunca nem vi a seca”, contou a diretora Quitéria Kelly na manhã deste sábado, 8, durante coletiva de imprensa na Sala Jô Soares.
Não espere, portanto, uma encenação regionalista, com muito couro e chapéus de cangaceiro, nem tramas envolvendo honra, miséria e um eventual duelo de peixeiras.
Em 2019, “A Invenção do Nordeste” venceu os prêmios Shell de Melhor Dramaturgia e Cesgranrio de Melhor Espetáculo, entre outros. No enredo, o produtor de um filme está à procura de um ator que seja “o mais nordestino possível”. Para os dois intérpretes que disputam o papel, sobra a tarefa tentar descobrir o que isso significa, exatamente.
A trama se baseia ainda na historiografia do professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior para expor a forma como, no decorrer do século XX, nasceram e se consolidaram as fábulas e fantasias que cercam os nordestinos. “Estamos aqui para questionar essa história, que foi tatuada nas nossas costas. Queremos tirar essas marcas, transformar isso em cinzas”, avisa Quitéria.
“O cangaço, por exemplo, precisa ser muito mais estudado e esclarecido. O cangaço era a milícia de hoje. Eu não tenho sangue de cangaceiro. Os cangaceiros eram estupradores e violentos. A Maria Bonita era uma escrota. O cangaço não foi legal.”
Não é de hoje que os integrantes do Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, contestam essas verdades estabelecidas. Na peça “Jacy”, de 2013, eles narraram a vida de uma mulher nordestina aparentemente comum que atravessou a Segunda Guerra Mundial, a ditadura militar e foi elemento central em um importante conflito político.
“As pessoas vinham falar com a gente e diziam: nem parece uma peça do Nordeste”, relembra Quitéria. “Nosso papel é derrubar essas barreiras. Existe um outro Nordeste tentando dizer: me escutem, nós aqui temos mais coisas pra mostrar.”
O caminho, no entanto, pode ser longo. “Quando eu vou fazer um teste pra algum filme ou novela, o produtor sempre pede se dá pra dar uma exageradinha no sotaque. Como é que se faz isso? Como é que eu peço, por exemplo, pra um curitibano ser ainda mais curitibano?”, reclama a diretora, que recentemente interpretou a personagem Latifa em “Mar do Sertão”.
“Sem falar que a gente só consegue fazer teste pra personagem nordestino, e isso se ele não for protagonista. Se for, quem pega o papel é alguém do Sudeste, que vai imitar um nordestino.”
De qualquer forma, Quitéria Kelly acredita que há um caminho para desfazer os mitos e lendas sobre esse Nordeste inventado. “Essa ficção foi criada pela TV, pelo cinema e pela literatura. Ou seja, esses estereótipos foram criados pela arte e só a arte pode mudar isso.”
SERVIÇO
A Invenção do Nordeste
Mostra Lucia Camargo – Festival de Curitiba
Data e Horário: 8 de abril às 20h30 e 9 de abril às 19h.
Local: Guairinha (Rua XV de Novembro, 971 – Centro)
Classificação: 12.
Duração: 60′
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e no Shopping Mueller (Piso L3).
Valores: R$ 80 e R$ 40 (meia)
Espetáculo conta com intérprete de Libras