“Tudo que se move é dança”, ensina Alejandro Ahmed.
Criador e coreógrafo do companhia Cena 11, Ahmed é um artista que não hesita ao falar sobre sua criação. Seu discurso eloquente sobre dança e teatro ecoa a poesia futurista e a prosa cyberpunk com mergulhos profundos na história da arte e na tecnologia de ponta.

Só assim lhe é possível dar as pistas certas sobre o que espera o público no espetáculo “Matéria Escura” que tem apresentações nos dias 7 e 8 de abril, às 20h30, no Teatro da Reitoria dentro da Mostra Lucia Camargo.

A apresentação do sábado, aliás, será a última deste projeto criado em 2020 para estrear na Alemanha e que, como muitos, foi atropelado pelo advento da pandemia. Ahmed conta que o isolamento fez o grupo mergulhar na pesquisa e testar múltiplos formatos e possibilidades que fizeram o trabalho quintuplicar de dimensão até a forma final com sete performers femininas e muitos elementos tecnológicos no palco. “Não há momento melhor para encerrar este ciclo do que o Festival de Curitiba com tudo o que ele representa”, disse.

Durante a coletiva de imprensa na Sala Jô Soares, na manhã desta quinta (6), ele explicou que o conceito de “matéria escura” que dá nome ao espetáculo é tomado da cosmologia e ciência, mas se manifesta em cena adaptado à cosmogonia particular do Cena 11. “Partindo de um pressuposto que a “matéria escura” é espécie hipotética de partícula invisível, um fenômeno que só se manifesta quando os corpos de alguma forma são modificados por ele. É uma manifestação sintoma”, disse.

Nada é convencional na coreografia de Matéria Escura. Para Ahmed, a dança em si é uma “tecnologia comportamental” e não há “moralismos” quanto ao uso de linguagens e recursos digitais. Um exemplo: o grupo usa um software livre de captação de palavras para transcrever palavras em tempo real numa tela a grafia dos sons e fonemas produzidos no palco.

“Isso se torna uma coreografia dramatúrgica que surge de forma germinativa que emergem desta configuração tentando dar uma lógica cíclica, não linear e, ao mesmo tempo não capturável que aparece como um sintoma dessas forças que atravessam todo o trabalho”, disse.

Ainda mais extremo é saber que o ritmo da peça é dado por gotas d’água que pingam em beats microfonados de 100 BPMs controlados digitalmente. A frequência e o tamanho das gotas é que movem a coreografia “Há um rigor no caos”, disse.

Por fim, todo o espetáculo será filmado e transmitido ao vivo numa plataforma na internet, captado por uma câmera profissional. O espectador pode acompanhar a peça ao mesmo tempo no palco e na tela do telefone. O diretor deixa esta escolha a cargo de cada um.

“Todos têm autonomia para escolher a forma como preferirem. Se a tela o erotizar, fique à vontade. As telas são espaços paralelos, complementares e de extensão àqueles em que a gente está. Hoje em dia é uma extensão do nosso corpo e ao mesmo tempo é outra coisa”, disse.
Há telas também no palco e, para Ahmed, elas são parte fundamental da coreografia. “A gente criou algo em que a tela não é só um recurso de registro de uma intervenção. Na tela, quando você grava a dança perde o efeito gravitacional, ela perde as três dimensões. Eu queria que a tela se manifestasse tal qual um corpo se manifesta”, disse.

Depois das explicações do diretor, uma certeza se impôs na Sala Jô Soares. Você pode até não entender exatamente o que é Matéria Escura antes de ver, mas vai ficar com a sensação que perdeu alguma coisa muito impressionante se não assistir as duas últimas apresentações do espetáculo do Cena 11 no Festival de Curitiba.

Serviço:
O que: Matéria Escura, no 31.º Festival de Curitiba
Quando: 07 e 08/04/2023 às 20h30.
Onde: Teatro da Reitoria (XV de Novembro, 1299)
Classificação: 16
Valores: R$ 80 e R$40/ (mais taxas administrativas)
Contém cenas de nudez

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